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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Conto: Entre Homens e Lobos, por W. Valek



Longe do barco dragão, longe da guerra e rica pilhagem. Todos os dias em minha terra são uma repetição, uma rotina cortar lenha imaginando ser o crânio de um inimigo. Caçar para prover a família, beber e fanfarronar nossas conquistas com os aliados, fazer planos e aceitar juramentos.

 A noite, perto do fogo, em meu salão brinco e conto histórias às crianças, bebo um pouco mais, recebo convidados. Mais tarde em meio as peles monto a mulher com luxúria na esperança de trazer mais guerreiros ao mundo e proliferar minha linhagem. Tudo tão normal, mas não hoje...

    Hoje a lua estará grande no céu. Hoje a manhã não será igual, nem a tarde, uma ânsia me perturba a paz, um temperamento volátil me afasta das crianças e dos amigos. O sol se move no céu chuvoso, já é hora de ir. Munido apenas de pele e arco me ponho a caminhar em meio a paisagem gelada. Bosque a dentro, ainda perigoso, montanha a dentro já no crepúsculo, talvez seja um distância segura.

    Uma fenda na montanha nada mais que um rasgo em vertical na rocha cercada de neve e alguns arbustos, mas lá, para olhos que sabem olhar além, algo místico se revela. Uma fina agonia apressa-me a entrar, lá dentro está um homem, mais espírito que carne, sentado ao redor de uma pequena fogueira, coberto por um manto velho de pele de ovelha. Ele me aponta o lugar, abaixo de uma estaria de fenrir amarrado. Despido de tudo, nu no fundo da montanha acontece.  

  A pele penica, formigando dentro e fora com o passar acelerado do sangue pelas minhas veias. O coração bate com um estrondo que me ensurdece os ouvidos,   cada vez maior e maior. A dor começa, ossos se quebram, rasgando a pele, perfurando órgãos ou empurrando-os para seus novos lugares. Gosto de sangue na boca, mandíbula deslocada, tornando-se uma bocarra monstruosa com fileiras de dentes. Membros partidos e retorcidos se tornando patas com dedos terminados em garras. A dor dos pelos cobrindo todo meu corpo é como se estivesse em chamas. A loucura toma minha mente, apenas gritar e gritar, gritar e gritar. Até tornar-se um poderoso uivo dentro do salão rochoso. A mente de homem já não existe, sem raciocínio ou compaixão, resta agora só instinto assassino de uma besta de pelos cinzentos.

  Agora lobo, correndo nas quatro patas, as garras cravando no gelo fazendo-me saltar mais longe. A montanha agora dá a luz a uma nova criatura entre homens e lobos, homens que deixei para trás, lobos que agora devo comandar. Uma matilha de feras correndo nas sombras da noite, pelos reduzindo cinza prateado com o reflexo da lua cheia. O vento noturno pasando por meu pelo, à velocidade meus irmãos e filhos de pata peluda me seguem, seu gigantesco líder agora os leva a uma aventura. Uma pequena fazenda, uma luz solitária numa casa com pouca defesa, a fera quer saborear o recém nascido que chora, mas hoje o homem é mais forte e leva para longe as mandíbulas mortais dos seus.

     Um cheiro é captado, dois, três. Um urso, um cervo, e um cavalo que fugia de seu dono. Os lobos de certo querem o cervo, a besta homem quer o urso, matar um predador, glória e poder, talvez até a besta almeja o Valhalla para sentar-se aos pés de Wotan, assim como Geri e Freky. Rasgando o manto da noite entramos num vale em busca de nossa presa.  Lá no fundo próximo a uma queda d'água está a morada do urso.

   Um uivo em desafio e o poderoso macho sai em defesa de seu território, descendo do patamar onde me encontro. Posto-me em frente ao poderoso dono do vale. Ele se põem em pé, ficando de uma estatura que nenhum homem alcança. Ficar de pé não me faz falta, sou assim durante o dia e igualmente letal. Ele urra seu desafio estrondoso e corre em minha direção, uma máquina de matar enorme. Fico firme, dentes a mostra, boca babando fúria, orelhas para trás, patas afastadas e flexionadas. Na distância certa, antes da patada mortal, me ponho em pé. 

   O urso se assusta e vacila no ataque, sem saber se da ímpeto ou freia a carreira, isso bastou para mim. Saltando de lado meti a garra no fundo da mandíbula, bem na lateral, onde os músculos fazem a junção desse ponto afundei os dedos na carne enganchando  no osso do maxilar rasgando fora toda parte inferior da boca que pretendia me devorar. O urso vai de cara na areia de forma desajeitada, a logus balançando pra fora, sangue voando no ar, empapando-se em seu pelo, fazendo desenhos no chão.

   Os espectadores se atiçam com o cheiro de morte. Sem dar tempo de meu oponente se estabilizar, salto em suas costas, mordendo seu pescoço, sentido as presas afundaram em sua carne. 

 O gosto ferroso do sangue na minha língua, um frenesi me toma, cravo as garras nos seus flancos e cavo sua carne até achar órgão e mutilá-los. Ele se levanta, como um deus urso no Ragnarok, mas eu sou Fenrir encarnado. Devorarei o universo e o deus urso. Jogo de lado meu corpo, aperto mais minha bocarra no hercúleo pescoço do inimigo, visando uma torção em seus ossos quebrando em vários pontos, rasgando artérias e ligamento. O corpo cai sem vida. Um uivo de uma besta agora assombra todo vale e além. 

   Meus irmãos e filhos comem, estarão bem por uns 2 dias. Agora na forma de homem levo o que restou do urso para minha casa de homens através da caverna na montanha do lobo. Meu povo fica salvo dos lobos e tenho uma história de caça para contar aos meus no salão com muito hydromel  e carne de urso, uma vez rei e na morte um poderoso deus guerreiro.

W. Valek



quarta-feira, 12 de junho de 2019

Conto: A Flecha, por W. Valek


A Flecha

Meus primeiros dias de vida foram em cima de uma grande árvore. De lá, eu via toda floresta, os Pinheiros altivos cravados na terra marrom escura, via como eram fortes suas raízes e como era bonito a dança da sua ponta ao vento. Vários animais dependiam do pinheiro para viver, muitos moravam nele, ou apenas descansavam de uma longa viagem; o rei da floresta ele era.

De dia pássaros cantavam suas melodias para o rei, os pica paus limpavam de sua casca os vermes, e a noite a curuja cantava em uma solitária e longa nota, embalando sua majestade. Até mesmo o céu era seu vassalo, dando-lhe um leve orvalho para aplacar a sede de um dia de sol. 

De minha morada o topo do Carvalho, contemplei por várias vezes humanos brincarem na nossa floresta, seus risos faziam feliz o Pinheiro e sua corte real. E um belo dia eu caí, pisoteado pelas crianças, afundei na terra húmida, tudo escuro, frio e muito medo, era o primeiro abraço da mãe terra jord. A terra se encheu de água da chuva de Thor, e o pai de todos Odin, disse que assim seja. 

Como por magia eu sai da terra, era alto, não mais uma bolota, eu era um pequeno carvalho. O tempo passou, passou e passou. As crianças e eu crescíamos  juntos, eu agora era mais alto que elas, que não brincavam mais da mesmo forma, se enamoravam na corte do rei, e eu também já espalhava meus descendentes no ar para virarem bolotas e um dia serem um poderoso carvalho.

Agora sou adulto, nunca mais vi as crianças, até um dia em que o menino agora homem veio até mim. Me observou como um velho amigo, e mais uma vez me levou ao chão, seu machado foi impiedoso e cruel. Me arrastou até sua casa em pedaços e me jogou no fogo, muito de mim fora perdido. Outras partes ele mutilou e moldou numa espécie de vareta que adornou com penas e uma ponta de metal. O homem me mataria aos poucos, mas para compreender tamanha maldade, permaneci vivo numa pequena parte de mim, para ver tal propósito. 

Antes tivessem  Fui atirado várias vezes no ar, voando e rodopiando como um pássaro, trespassei vários animais e seu sangue morno me cobria toda vez. Não mais eu trazia vida e abrigo, agora eu era a morte alada do homem.

Um certo dia voei na direção de um homem eu voei, asas negras de corvo me guiaram certeiro na pele de um homem. Meu mais terrível golpe direto por seu coração podia sentí-lo batendo e babando sangue na minha madeira. Fui partido ao meio pelo homem ferido que armado com seu machado derrubou o menino homem que outrora conheci, e ali, em meio ao sangue e loucura, perecemos juntos. Num último alento meu pude ver no reflexo de seus olhos mortos o rei Pinheiro em sua Glória, então eu soube, que os homens passarão mas o rei alí para sempre estará.
    
W. Valek


sábado, 9 de fevereiro de 2019

Primeiras Impressões: Livro - A Era do Abismo, do autor Bernardo Stamato.


Precisamente no dia dez de dezembro de 2018 a Editora PenDragon lançou o livro A Era do Abismo - O Torneio dos Campeões, do autor Bernardo Stamato. A obra tem cerca de 364 e o tipo de capa é em brochura. Deixo aqui minhas primeiras impressões dessa obra e já adianto para vocês que é muito boa.

A Era do Abismo conta a história do aventureiro Draco em sua jornada por vingança em honra de seu mestre. No caminho ele encontra amigos que serão seus pilares de sustentação nos momentos mais difíceis. Mas até que seu objetivo se concretize Draco e seu grupo de aventureiros - que é formado pelo paladino anão Alberich, o humano Marcus, a oriental Zhi Wu e pelo grande amigo de Draco, Gladius - acabam aceitando missões nobres dignas de verdadeiros heróis.

E como primeira missão o grupo é recrutado pelo elfo, Sedlon, para averiguar movimentações atípicas de goblins, já que é algo incomum que essas  criaturas horrendas se reúnam sem haver caos, junto a fronteira. Lá eles se deparam com um clérigo robgoblin e seu batalhão de goblins e uma verdadeira matança acontece alí. A quem estas criaturas estão servindo? Essa é uma pergunta que deixa o leitor com água na boca querendo mais. Esta é sem dúvidas uma saga épica, fantástica e grandiosa com muito potencial para fixar como grande obra no gosto dos leitores.

A forma com que o autor narra as batalhas é bem interessante, pois prende a atenção do leitor de vez. Somado a isso ele consegue escrever diálogos inteligentes, muito bem construídos e que fluem bem, deixando a história mais cativante. Outro ponto forte do autor é sua riqueza de detalhes ao descrever as cenas, os lugares, e pessoas que facilita para o leitor ter uma melhor experiência quando se está imaginando o que está lendo.

É uma história de fantasia bastante prazerosa, rápida e de fácil leitura. Fazendo com que o leitor rapidamente "devore" várias páginas sem perceber. Gostei demais desse livro. O autor Bernardo Stamato e a editora PenDragon estão de parabéns pelo laçamento dessa obra fantástica.

Segue abaixo o link para, caso deseje, adquirir o livro.



Sobre o autor
Bernardo Stamato participou do concurso cultural “Eu, Criatura”, ficando em primeiro lugar. Desde então, escreve contos, se tornou crítico literário e instagrammer Nerd & Louco (mais de treze mil seguidores). Além deste romance, os leitores podem desbravar mais fábulas d’A Era do Abismo através de contos gratuitos no Wattpad.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Conto: Viking Way, por W. Valek



Manhã fria, floresta em bruma, o machado na minha mão diz que sou lenhador a cortar madeira para o fogo. Tarde úmida, celeiro em sereno, a faca na minha mão diz que sou um açougueiro cortando uma caça. Crepúsculo, uma grande peça de madeira na mão me diz que sou carpinteiro.

Noite quente, chama e bigorna, o martelo na minha mão diz que sou um ferreiro reparando uma roda de carroça, madrugada gelada, o chifre na minha mão me diz que sou um bêbado entre as pernas de uma mulher. Visão turva, propósito de trazer vida ao mundo.  Aurora, barco deslizando no verde azulado do mar  diz que sou pescador, comercializando na costa. 

Aurora, o barco desliza no mar verde avermelhado, diz que sou conquistador, arrebatando toda Costa. Manhã fria, chifre na mão, diz que sou um senhor da guerra chamando os homens a batalha, pilhar, saquear ou valhalla. Tarde úmida, o machado em minha mão me diz que sou implacável, abrindo caminho através dos homens. 

Crepúsculo, uma peça de madeira e metal em minhas mãos, junto a meus irmãos, me diz que sou uma parede, uma parede de escudos. Noite quente, sax na mão, me diz que sou a morte, estoca e corta na parede de escudos. Visão focada, propósito de levar o terror ao inimigo.

Madrugada gelada, martelo no pescoço, me diz que sou devoto, o deus do trovão zela por mim. Aurora, a mulher na cama de palha, o gosto azedo da bebida, o machado na mão e o sorriso dos deuses me diz que sou feliz, e farei tudo de novo.

W. Valek



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